sexta-feira, 20 de maio de 2011

Minha Labuta

Esse caso,ocorreu na minha adolescência.época no qual,até ele acontecer,eu tinha tido uma vida perfeitamente estável e feliz, de garoto revoltado, instável e infeliz que estudava em escola particular.

Até o fatídico dia, em que o dito caso aconteceu, porém, minha vida literária era perfeitamente regulada por mim mesmo, e por isso, vivia nela perfeitamente, sem ser obrigado a me importar com a imperfeição do mundo ao meu redor, que sempre achei, e de fato a continuo achar, entediante, senão perigosa.

A situação catalisadora do funesto evento no qual eu tive azar de ser forçado a estar inserido,foi a chegada em minhas mãos,de maneira que não me lembro,daquele livro do qual não mais me forgotarei,enquanto vivo estiver, cujo inocente título era

''O PEQUENO PRÍNCIPE,por Antoine de Saint-Exupéry,com ilustrações originais do mesmo''.

E, embora possa ser danoso a minha masculinidade (leia-se, reputação de cabra-macho entre os outros ditos cabras-machos de meu círculo social ), admitir que de fato, gostei daquele livro, que depois, tanto se revelou danoso a minha dignidade psicológica, o fato, é que na verdade, eu simplesmente adorei o dito livro.

Não só porque, de fato, eu tenha cometido o erro de achar que a maneira desprentensiosa, e fabulativa , e ao mesmo tempo tão candente e sincera ,do autor( e ilustrador )da citada obra falava de temas comuns aos adultos e crianças era excepcional, um tratado de verdadeira psicologia escrito em forma de mera fábula, mas também porque eu ia poder dizer para as pessoas que eu conhecia que o livro,que achava que ele era cheio de significados imanentes além daqueles que o autor deixava meramente inerentes.

Foi nessa ingênua vaidade intelectual de uma criança de 13 anos,que se gerou um dos traumas que levaram minha vida a ser o que é hoje.

O meu erro, meu grande erro, foi o de não saber, naquela época, que o pessoal de Recursos Humanos e outras áreas relacionadas, tinha conhecido o livro antes de mim.

Tivesse eu consciência disso, jamais teria cometido o erro de gostar sinceramente dele.

O desastre,teve seu desenlace na minha escola, no Ginásio.Um dia excepcionalmente,ao invés de aula,as coordenadoras resolveram fazer o que chamavam de- ''uma oficina'' - uma OFICINA,diziam elas,mas na verdade, uma OFIDÍOCINA, uma OFISSASSINA, digo eu, porque matou uma das coisas que mais amei na minha puberdade, um livro infantil que eu podia ler sem sentir vergonha porque era (creio que ainda é, nunca mais quis ouvir falar dele ) considerado cool.

O tema da oficina era, escrito em letras garrafais:

''É PRECISO CATIVAR ''.

De começo,ingênuo,achei que seria legal.

''Que ótimo''

Pensei eu.O trecho da conversa com a raposa é a parte mais comovente, digo, cheia de significados filosóficos, de todo o livro. Porém,o que aconteceu, é que fui cruelmente seviciado mentalmente.

Durante uma hora e meia, fui obrigado a ouvir, porque as horas da oficina também contavam como aulas,a oração ''é preciso cativar'', em frases, cartões, e cartazes,finalizando com uma cruel dinâmica de grupo.

Para terminar de destruir minha relação com a obra, cujo conhecimento especial eu esperava espalhar aos poucos quando conversasse sobre livros com outras pessoas, uma das professoras veio, e sem consciência do que havia feito, veio conversar comigo.

''-Nicolas! Você é um garoto que,todos nós sabemos,gosta de ler muito.Volta e meia até falta aulas para ficar perto da estante de livros que ao lado da sala de professores.Não teria lido alguma vez, um dos nossos vários exemplares do livro da oficina ,para compartilhar seu conhecimento com a nossa Roda?''

-Não...não (SUA PEDAGOGA,PEDAGOGA,PEDAGOGA,PEDAGOGA!!!)...não li nunca esse não senhora. Eu ficava lendo os livros de Economia Política para Jovens.

-Claro, Nicolas, você é um garoto inteligente!

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A partir desse dia, foi que passei a ter consciência da nefasta influência anglo-saxã sobre nossa Educação, que transformava todos os bons livros em palestras com lições de moral extraídas de frases, e passei a aprender sobre Economia Política, adquirindo valiosos conhecimentos que depois se revelaram úteis na missão que sigo atualmente.

Havia sido cativado para a luta sem regras nem quartel pela exaltação de nosso Povo Grande-Brasileiro.

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